domingo, 24 de março de 2024

Astronauta: HQ "Povo sem memória também tem história"


Mostro uma história em que o Astronauta teve que lidar com um falso Rei que tirou toda a memória da população de um planeta para que se tornem escravos dele. Com 10 páginas, foi publicada em 'Cebolinha Nº 29' (Ed. Globo, 1989).

Capa de 'Cebolinha Nº 29' (Ed. Globo, 1989)

Escrita por Rubens Kiyomura (Rubão), Astronauta se dirige ao planeta "Semlembrança", sabe que existe vida no local, mas estranha que tem milhões ou bilhões de pontos de interrogação lá e vai investigar. Astronauta encontra um habitante capinando, se apresenta que veio do Planeta Terra e que quer informações. O ET diz que vai ser impossível, ele não se lembra de nada, queria saber seu nome, ninguém do planeta sabe o nome dele e só sabe que tem que trabalhar com aquela enxada.

Depois, Astronauta encontra uma habitante procurando pelo pai do menino. Astronauta pergunta se lembra como ele é, a habitante responde que é pergunta difícil, que claro que não. Astronauta pergunta se ela é a mãe do menino e ela responde que pode ser que sim ou que não, só sabe que acompanha desde o dia terrível, que a partir daí não lembra de mais nada.

Astronauta vê que o povo todo era desmemoriado e vai ver o que está acontecendo. O Rei do planeta vê o Astronauta como alienígena intruso e chama os seus guardas, também desmemoriados, para capturá-los por ser uma ameaça, podendo levar ao caos, à desordem e à catástrofe. Ao chegarem, Astronauta luta com os guardas e os prendem. Astronauta quer saber quem manda e o que acontece lá e os guardas contam que recebem ordem do Grande Não-Sei-O-Quê e quanto ao resto, não sabem mais de nada.

O Rei vê pelo monitor, acha o Astronauta um perigo e vai cuidar do assunto pessoalmente. Usa seu novo desmemorizador para torná-lo mais um de seus escravos. Não consegue acertá-lo com os raios porque o Astronauta se movimenta pelo céu e em frente ao reino o tempo todo e no descuido consegue dar um tapa no Rei, indo parar longe.

Astronauta exige explicações. O Rei conta que foi primeiro-ministro do planeta, que sempre foi ambicioso, mas tinha o Rei Máximo no seu caminho que era muito adorado pelo povo. Ficava com raiva com todo aquele carinho e resolveu contratar cientistas com o dinheiro que roubou do Tesouro Real e eles criaram o raio desmemorizador, tirando a memória do Rei e de todo o povo, já que um povo sem memória é mais fácil governar, e inventa que eles devem obedecê-lo e respeitá-lo.

Os outros guardas tentam capturar o Astronauta, que chega na máquina e inverte a polarização, fazendo os guardas voltarem a ter memória. Lembram que ele era o primeiro-ministro e perguntam o que está fazendo com a coroa do Rei Máximo. Assim, prendem o vilão, recupera a memória do Rei Máximo e de todo o povo e volta a paz no planeta. No final, Astronauta sai de lá, de volta para casa e se pergunta que tem impressão de ter esquecido algo e o roteirista Rubão, fora da história, diz que ele esqueceu da piada final.

Uma aventura legal em que o Astronauta procura descobrir porque o povo do planeta Semlembrança não tinha memória. Descobre que foi o primeiro-ministro tirou a memória deles com uma invenção para se tornar rei e fazer o povo de escravo dele para ganhar muito dinheiro à custa deles. Felizmente, Astronauta consegue salvá-los e volta a ficar tudo bem no planeta, se não fosse Astronauta visitar o planeta, estariam sem memória até hoje.

Mostra um político corrupto, com inveja com o rei que era aclamado pelo povo e que era capaz de tudo para se dar bem, praticamente fez uma lavagem cerebral na população para que eles acreditem no que ele fala e se tornarem escravos, trabalhando para ele o tempo todo, se população não têm memória, não iam descobrir o golpe que ele fez. Nem o próprio nome revelou para eles, por isso chamavam de Grande "Não-Sei-O-Quê". Interessante que eram só os homens que trabalhavam pesados, mas que já conseguia um bom dinheiro assim. 

Foi engraçado ver o planeta sendo representado por interrogações, os diálogos do Astronauta com os ETs desmemoriados, Astronauta com super força ao enfrentar o Rei golpista, e o Rei dizer que "pegou emprestado" o Tesouro Real, o mesmo que  roubar só que de forma carinhosa e no final absurdo do roteirista conversar com o Astronauta que esqueceu da piada final só que era ele próprio que estava escrevendo a história, coisas da metalinguagem dos quadrinhos que deixavam absurdos legais assim.

O título teve uma paródia da frase popular que "um povo sem memória, é um povo sem história", no caso, história no título com referência a uma história em quadrinhos. Aliás, era raro ter título em histórias do Astronauta na época, nessa teve um. Achava bem criativo os nomes dos planetas que o Astronauta visitava. Era legal também os pensamentos e sonhos retratados com cores diferentes, voltados para o azul, ficavam bons os efeitos, hoje procuram deixar pensamentos coloridos, sem diferenciação das cores da história.

O final seguiu um estilo de metalinguagem muito usado na época de ser uma história normal e no encerramento ter o Mauricio ou um roteirista ou um letrista ou desenhista ou outro funcionário da MSP para formar a piada final. Rubão e Robson Lacerda adoravam roteirizar histórias assim e que foram bem frequentes na segunda metade dos anos 1980, quase todos os gibis daquela época tinham histórias com metalinguagem e podiam ser com qualquer núcleo de personagem. Geralmente, o roteirista que aparecia na história era quem escreveu, agora aparecendo vários ou o próprio Mauricio, por exemplo, mais difícil saber, sendo que normalmente histórias assim revezavam mesmo entre o Rubão e o Robson.

Os traços muito caprichados, típicos da segunda metade dos anos 1980. Incorreta atualmente por mostrar político corrupto, assunto inapropriado para crianças, povo como escravo trabalhando com enxada, briga do Astronauta com os guardas deixando surrados, fora a palavra "Droga!" proibida nos gibis atuais. 

26 comentários:

  1. Piada final é o roteirista se queixando de que falta exatamente isto... Astronauta com sensação de ter esquecido algo e tal impressão é a falta de inspiração do autor em não encontrar a piada de encerramento, e o que o herói diz ademais linka com o tema de uma população, não de país ou de continente, mas mundial ou planetária completamente amnésica.
    Se "Povo sem memória também tem história" terminasse sem metalinguagem, naturalmente não revelaria que foi escrita pelo Rubão, daí, eu sustentaria possibilidade de ser fruto da mente do Patropi, aquele aluno da Escolinha do Professor Raimundo, pois a trama tem umas passagens que lembra muito o jeito de ser dele.

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    1. Sim, a piada foi o Rubão lembrar ao Astronauta que tinha esquecido da piada, foi de propósito, intenção era que o povo do planeta voltou a se lembrar de tudo e o Astronauta é quem esqueceu, fora que na época tinham muitos finais assim com o Mauricio ou pessoal do estúdio, sempre que podiam, deixavam finais assim. Caso não tivesse essa piada no final, aí eu acharia que poderia ser também história do Robson Lacerda, tinha um estilo bem parecido com o Rubão.

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    2. Após o tirano ser destronado, o nome original do planeta ou nome anterior ao mencionado no quadro de abertura foi ignorado, o orbe foi renomeado como Semlembranças* após o invejoso primeiro-ministro usurpar o trono. Com retorno do verdadeiro monarca era para o roteirista ter revelado isso aos leitores abordando como rebatismo, resgatando o verdadeiro nome, não está na história, mas com certeza isso se deu.
      *Ou Sem Lembranças, tenho dúvida se é erro ou não a união destas palavras como sendo uma, pois, na língua portuguesa, M precedendo L não é usual, foge à regra.

      Acho que Robson participa da HQ de abertura de Mônica nº193 da Editora Abril. Tive essa edição e tenho dúvida se é ele ou o Reinaldo, o que lembro bem é que conta com extraterrestres malfeitores.

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    3. Após terem se livrado do tirano, o planeta deve ter voltado ao nome anterior ou, quem sabe, se passar a chamar "Comlembrança". Uma pena não terem relevado o novo nome do planeta já que com certeza não mantiveram o mesmo nome que o malfeitor deu. Difícil saber se foi proposital ou não a ausência de espaço em "Semlembrança", acredito que era essa intenção mesmo pra dar impressão de nome único. Na história de abertura de Mônica 193 de 1986 foi o Robson retratado e consequentemente o próprio quem roteirizou a história. Conta com extraterrestres malfeitores, sim.

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    4. Como citou Robson em seu comentário-resposta, lembrei dessa HQ, tinha certa dúvida quanto à participação dele, se era o próprio ou o sorridente colega de profissão. Se bem que só agora atinei que em 1986 Reinaldo Waisman trabalhava com Xuxa e a publicação de Mônica nº193 foi nesse ano, daí seria estranho participação nessa história devido a isso, se eu tivesse raciocinado um pouco já poderia ter quase absoluta certeza de que é o Robson nessa aventura da Mônica com a turma toda do bairro, no entanto, possibilidade de que teria ficado arquivada seria algo a se considerar para justificar a dúvida, não refiro apenas roteiro e sim história concluída, engavetada e publicada dois anos depois, sabemos que não é o caso, mas faria sentido como conjectura para ficar em dúvida entre um e outro como participante e autor da HQ.

      A forma como Astronauta derruba o regime do ex-primeiro-ministro e, até então, rei, sugere que Rubão estava pouco inspirado quando o ou a escreveu (roteiro, história), Astronauta está tipo Super-Homem, tipo Homem de Ferro, cara mal chega e muda o rumo da (H)história da população de Semlembranças. Prefiro aventuras em que enfrenta maiores dificuldades, em que rala mais para conseguir virar o jogo.
      Melhores tramas do herói espacial da MSP são, sem dúvida, as produzidas e publicadas nos 1970. Apesar de apreciar consideravelmente as HQs oitentistas e noventistas do núcleo, comparando, impressão que passa é que Mauricio e sua equipe meio que o deixam em segundo plano nas duas últimas décadas do século passado, claro que de modo bem sutil.

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    5. É, o Reinaldo não chegou a ficar na MSP em 1986, se ficou foi só no início. Pelos desenhos dá pra perceber que era mais o Robson do que o Reinaldo, costumavam deixá-lo mais sorridente ou dentes à mostra em suas caricaturas. O Astronauta teve uma superforça nessa como o Super-Homem ou até mesmo como Mônica, uma alternativa também seria usar uma invenção em apertar um botão do traje e sair uma mão dando soco, como já aconteceu em outras histórias. As dos anos 1970 eram criadas mais pelo Mauricio, as vezes pelo Reinaldo, tinham um lado mais filosófico e ação, já as dos anos 1980 e 1990 deixavam mais para o humor até as de aventura, vejo diferenças assim entre as décadas da fase clássica.

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    6. Reinaldo participa de "Cascão tomou banho", edição da qual essa história é parte principal, chega às bancas em fevereiro de 1986, produzida, muito provavelmente, no ano anterior.
      Não sabemos quando exatamente Waisman foi desligado da MSP. Xou da Xuxa estreou na Rede Globo em junho de 1986, talvez tenha puxado carro em dezembro de 1985, ou alguns meses depois.

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    7. Sim, como os gibis têm antecedência antes de chegarem nas bancas, é possível que ainda tenham histórias do Reinaldo até metade de 1986, depois disso não mais, a não ser arquivadas e que ele deu autorização pra publicarem, visto que a saída foi amigável, ele continua amigo do Mauricio até hoje. Tanto que na segunda metade dos anos 1990, voltaram a colocar o Reinaldinho como o menino fofo por quem as meninas eram apaixonadas.

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    8. Há uma que parece que primeira publicação é do final dos 90's, acho que de 1999 e conta com presença desse guri, entretanto, única e sutil diferença é que o chamam de Ronaldinho, mas, se contabilizarmos todas aparições de Reinaldinho, dá para incluir o menino dessa história como sendo ele devido aos cabelos loiros cacheados, crânio e rosto verticalizados e olhos verdes ou azuis em órbitas ovais, mesmo formato de olhos de personagens como Raposão, Jeremias, Bolota, Rolo antes da abominável reformulação na aparência, Humberto, etc - nessa, acho que está com sardas, sei lá, quiçá não.

      Sobre Astronauta, HQ oitentista cujo roteiro considero notável é sobre uma espécie denominada por homens-pássaros, grosso modo, são cegonhas gigantes, intitulada, como muitas do núcleo espacial, apenas por "O Astronauta ", primeira publicação consta em Cebolinha nº133 (1984). Imagino que conheça, Marcos. Caso não tenha esse gibi, a HQ provavelmente faz parte de sua coleção por meio de republicação.

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    9. Em 1997 teve uma história como garoto se chamado Reinaldinho mesmo e tinha cabelo loro encaracolado e olhos claros. E depois uma ou outra também. Algumas vezes chamavam de Ronaldinho, mas não considero o mesmo Reinaldinho e nem sempre tinham a base de traços com cabelo loiro encaracolado. Conheço essa história do Astronauta, o casal de homens pássaros gigantes achavam que a nave do Astronauta era um ovo que a mulher tinha chocado. Tenho a original de 1984 e a republicação no Almanaque da Mônica 23 de 1991.

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    10. Também tenho esse gibi de 1984, já o almanaque em que se encontra republicada pertenceu à minha coleção de outrora.
      "O ser mais poderoso do universo" é outra oitentista cuja trama é de primeira ordem, com Satanás se passando por Jeová, entidade essa que nos referimos por Deus, e Astronauta, a princípio é engrupido pelo Todo Poderoso falsificado, até desconfiar de seus argumentos, consequentemente, de suas intenções e diz para o ancião que não é quem diz ser e se retira do que se passa por ambiente celestial, sem saber que se trata do Sete Peles, cuja identidade é revelada no quadro de encerramento, excelente desfecho. Publicada em Cebolinha nº151 de 1985.

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    11. Legal que conseguiu esse de 1984. Essa história de 1985 é excelente, tenho essa, de fato Satanás se passando por Deus completamente impublicável hoje.

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  2. Olá. Boa noite, Marcos. Eu sou JP, de Salvador-Bahia. Por gentileza, uma pergunta: é verdade, que, os Quatro Livros:
    Raia;
    Cais, (os dois Livros, da Editora Arte Ensaio Ltda);
    Sempre Raia, Um Novo Dia,
    E
    Turma da Mônica Edição de Luxo: "AVENTURAS DO FIM DO MUNDO!", eles estarão disponíveis, nas Livrarias das Regiões Todas do Brasil todo, por tempo indeterminado, é isto?. Eu aguardo respostas. Abraços.

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    1. Boa noite. Por tempo indeterminado, sim. Abraços.

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    2. Ok. Marcos, por gentileza, é verdade, que, nos meses de Maio/Junho do ano de 2024, terão os Relançamentos dos Almanaques Bimestrais:
      Mônica; Cebolinha; Cascão; Magali, e, Chico Bento Edições #17 (Edições #102-Segunda Temporada), e, Turma da Mônica Edição #17 (Primeira Temporada), nas Bancas de Revistas, e, Livrarias das Regiões Todas do Brasil todo, é isto mesmo?. Eu aguardo respostas. Abraços.

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    3. Terão relançamentos desses almanaques. Abraços.

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    4. Ok. Muito obrigado, então, Marcos.

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  3. Saudade de quando as histórias do astronauta eram boas, com aventuras e bem desenhadas.

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    1. Eu também, principalmente em relação a desenhos. Hoje estão muito bobinhas as histórias do Astronauta.

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  4. Me pergunto como esse cara achava que essa ideia dele tinha alguma chance de dar certo, ainda mais quando você vê os guardas questionando por que eles têm que obedecer. E quando ele morresse, quem iria suceder? Como o povo ia fazer, sem memória e sem liderança? Na certa o bicho era tão ganancioso que nunca pensou nisso.

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    1. Nunca daria certo mesmo, na mente dele, enquanto estivesse vivo, tudo mil maravilhas, quando morresse, povo que se vire pra arrumar um líder entre eles ou que morressem também sem ter liderança, pra ele, tanto faz, tanto fez.

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  5. Realmente as estórias tinham não só criatividade, como faziam muitas vezes, um paralelo com a realidade. Era também uma forma de crítica social. Essa parte reflexiva das histórias contribuia com o desenvolvimento das crianças e adolescentes, além de atrair a atenção dos adultos para a leitura dos quadrinhos. Este trecho da história resume o sentido da mensagem passada ao leitor: "Um povo sem memória, é muito mais fácil de governar ". Por isso, velhos políticos sempre dominam e enganam o povo, é como se a população não tivesse mesmo memória.

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    1. Verdade, foi crítica social com o que viviam e que infelizmente continua atual. Políticos enganam e o povo cego ainda aplaude. Eram boas histórias assim de reflexão, hoje acham que são inapropriadas pra crianças, só que é justamente o contrário, iriam ajudá-las muito.

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  6. Essa história é uma metáfora para o Brasil, com certeza. A MSP já fez muito isso em diversas ocasiões.

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    1. Com certeza, e continua bem atual. MSP sempre tinha histórias assim filosóficas e davam um contraste com as de humor, tinham histórias pra todos os gostos. Era bom.

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    2. Isso aí, Bardo da Névoa. Contém discreto paradoxo na frase que a intitula, nos alfineta com finalidade de nos exaltar, consegue ser relativamente engraçada com tal analogia e até mesmo sem qualquer referência subliminar com a vida real o traço de humor do título se mantém perceptível com foco apenas no que ocorre na aventura.
      Historicamente o povo brasileiro é desmemoriado, desinteressado por elementos históricos, sejam esses personalidades e eventos, está nem aí para saber, tomar conhecimento da própria origem não faz parte da nossa base, daí, se não esquenta com passado, com essa de que, o que passou, passou e por isso não importa, enquanto a nação não mudar essa mentalidade, o futuro do Brasil continuará às cegas, incógnito...

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