quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Cascão: HQ "O Gênio do Sabonete"

Em 14 de janeiro de 1996, há exatos 30 anos, falecia a roteirista e desenhista Rosana Munhoz* e então relembro a última história dela publicada em vida, "O Gênio do Sabonete", em que o Cascão encontra um gênio que vivia dentro de um sabonete e precisaria tomar banho para poder libertá-lo e ter todos os seus desejos realizados. Com 15 páginas, foi publicada em 'Cascão Nº 235' (Ed. Globo, 1996).

Capa de 'Cascão Nº 235' (Ed. Globo, 1996)

Cascão vê um sabonete pedindo socorro e pergunta quem chamou. O sabonete fala que foi ele e pede por favor para não deixá-lo jogado ali no chão. Cascão coloca luvas para pegar o sabonete e pergunta onde deve colocá-lo logo porque não gosta de sabonetes nem dos que falam. Ele diz que é um gênio que vive dentro do sabonete, está aprisionado há séculos e se Cascão soltá-lo, vai atender a todos os desejos dele e será rico e poderoso.

Cascão pega uma faca para cortar o sabonete, o Gênio pergunta se quer matá-lo e diz que para soltá-lo, tem que gastar sabonete até acabar e aí fica livre. Cascão avisa que nunca tomou banho na vida e nem quer tomar. O Gênio pergunta se ele não tomaria nem para salvá-lo, nem para ficar rico. Cascão recusa, o Gênio fala que depois é só pedir para voltar a ser sujo e Cascão diz que não aguentaria o choque.

O Gênio do Sabonete pede para deixá-lo novamente no chão para outra pessoa achá-lo, salvá-lo e ter todos os pedidos atendidos. Cascão tem ideia de pedir para arranjar outra pessoa para tomar banho no lugar dele, aí salva o Gênio por tabela e realiza os desejos dele.

Assim, Cascão dá o sabonete de presente para Cascuda e pergunta se ela vai tomar banho com ele. Cascuda responde que vai guardar na gaveta com todo carinho na gaveta dela para não gastar. Cascão manda devolver, toma o sabonete da mão dela e Cascuda termina o namoro, mandando o estúpido nunca mais falar com ela. Cascão diz que depois pede para o Gênio para Cascuda ficar de bem com ele e vai procurar um bobão que tome banho.

Cascão pergunta para Mônica se ela vai tomar banho e ela lhe dá uma coelhada para aprender a não ser mal-educado. Cascão diz que não foi, que só ia lhe dar um sabonete para tomar banho e ficar cheirosa e ela dá outra coelhada por achar que estava sendo chamada de fedida e que fedido é ele.

Depois, Cascão encontra o Cebolinha, diz que achou e vai emprestar um sabonete e pergunta se vai tomar banho com ele. Cebolinha diz que agora não, já tomou hoje. Cascão fala para tomar de novo, só para usar o sabonete, Cebolinha diz que está limpo e Cascão o suja com terra. Como está sujo, manda Cebolinha usar o sabonete e ele diz que com prazer, jogando o sabonete na cabeça do Cascão.

Em seguida, Cascão fala para Magali que tem algo para ela. Magali põe sabonete na boca pensando que era coisa para comer e ela o joga no chão. Cascão acha uma boa ideia Magali chupar o sabonete até gastar todo e ela dá uma surra no Cascão.

O Gênio fala que a ideia não deu certo, que é uma pena, não poderá ser amo dele e terá que abrir mão de todos os desejos, a não ser que faça sacrifício de tomar banho. Cascão pensa no que pode ter e aceita, pega tina, água e apetrechos e cria coragem para entrar na tina d'água e não consegue. Toma impulso de correr até a tina e desiste. O Gênio o manda lembrar de todos os desejos, Cascão pergunta se promete fazer voltar a ficar sujo, tenta pular, lembra de algo e desiste voando de volta à superfície.

Cascão diz que entendeu tudo, esse papo de gênio de sabonete é para enrolar, tudo um plano infalível do Cebolinha combinado com a turma para fazê-lo tomar banho, por isso ninguém queria tomar banho. O Gênio comenta que está ouvindo ele falar e Cascão diz que deve ser ventriloquismo ou um gravador escondido. O Gênio pergunta se não vai libertá-lo, Cascão diz que é papo furado e o deixa ali na rua, lamentando que foi acreditar nessa coisa ridícula. 

O tempo fecha e começa a chover. O sabonete vai se gastando com a chuva e depois que acaba todo, o Gênio é libertado e comemora que melhor que sem nenhum amo para mandar nele e sai voando. A chuva passa na hora, Cascão sai de casa desesperado falando para o Gênio esperá-lo e lamenta que ficou sem os seus desejos. No final, com dinheiro da mesada na mão, compra todos os sabonetes do mercado e sai falando com eles que são bonitinhos, que é para falarem com ele e que em um deles tem um geninho e a turma vendo a cena acha que Cascão pirou.

História engraçada em que Cascão encontra o Gênio do Sabonete e precisa tomar banho para gastar o sabonete e libertar o gênio para que pudesse ter seus desejos realizados. Cascão adiou ao máximo, tentou ajuda de seus amigos a tomarem banho por ele e não teve jeito de tentar tomar banho, só que lembra que poderia ser plano infalível da turma e desiste. O sabonete é gasto com a chuva, o Gênio é libertado, Cascão descobre que era tudo verdade e passa a comprar todos os sabonetes do mercado pra ver se encontra outro gênio para realizar os desejos dele. 

Foi bom o mistério até o final se era ou não plano infalível. De início dava para pensar mesmo que era plano da turma para o Cascão tomar banho, no caso seria um plano de ventriloquismo, e no final foi provado que não, para o desespero do Cascão. O Gênio podia ter falado com os amigos do Cascão confirmando que existia e ver se pudessem ajudá-lo, aí mais um motivo que dava ideia que era um plano deles ou então um sabonete que saiu da história do Bidu, já que pareceu estilo Bidu falando com objetos.

História foi uma adaptação da fábula de Gênio da Lâmpada, em vez de lustrar lâmpada antiga para ter desejos realizados, aqui o Gênio morava em um sabonete e teria que alguém gastá-lo com água para ser libertado. O mais certo quem tomasse banho com o sabonete seria o amo do Gênio, mas ele aceitou a condição do Cascão de alguém tomar banho no lugar dele. Mesmo que alguém tomasse banho, teria que ficar horas tomando banho para gastar um sabonete inteiro, não seria muito agradável também.

O Gênio não disse que teria que gastar sabonete apenas com banho senão não iria ser libertado com a água da chuva sem ninguém ter tomado banho. Como não era necessariamente ser banho para libertá-lo e se um amigo tomasse banho, o Cascão seria o amo da mesma forma, Cascão podia  ter pedido a mãe para lavar louça com o sabonete ou simplesmente colocá-lo em uma tina até ser todo dissolvido. Interessante que a chuva acaba bem depois que o Gênio é libertado parecendo ajuda dos céus porque o Cascão não quis tomar banho.

A interação do Cascão com a turma foi boa, muito engraçado ele pedir para Cascuda devolver o sabonete que tinha presenteado já que ela não ia tomar banho, levar duas coelhadas da Mônica porque achava que estava implicando com ela que não tomava banho e que era fedida, Magali colocar sabonete na boca pensando que era comida e por não perguntar o que ele tinha na mão, ainda bem que ela não engoliu de cara, e Magali bater no Cascão depois que sugeriu de chupar sabonete até gastar, quem diria Cascão apanhar justo da Magali.

Foi engraçado também Cascão querer cortar o sabonete e Gênio dizer que queria matá-lo, o Gênio mexer no emocional do Cascão que ia perder todos desejos para convencê-lo a tomar banho, Cascão pegar patinho de brinquedo para o banho, voar quando estava pulando na tina para voltar a superfície e escapar do banho. Incorreta atualmente por chantagem de forçarem Cascão a tomar banho sem ele querer, Cascão segurar faca, Magali comer sabonete, Cascão apanhar de todo mundo, ficar de olho roxo e galo na cabeça, levar coelhada explícita da Mônica sem ser só onomatopeia, Cebolinha jogar sabonete na cara, Cascão chamar os amigos de bobões, e absurdo de Cascão voar para se livrar do banho. 

Traços ficaram bonitos, meio fofinhos, típicos dos anos 1990. Cores com fundo em degradê como estava padrão  desde o segundo semestre de 1995. Teve enquadramento de  faixas de 3 linhas e 3 colunas por página, que estava frequente em histórias de abertura da Rosana na época. 

Curiosidade dos gibis a partir de de janeiro de 1996 com a volta dos códigos nas histórias que ficaram ausentes entre 1994 e 1995, só que agora em novo formato e até mais simples de decifrar, nessa história foi MSP96CC23501. E, assim, marcou a estreia desse novo formato de código em um gibi do Cascão. Esses códigos assim ficaram até em 2003, voltando a não ter mais no final da Globo entre 2004 a 2006 e retornando depois nos gibis da Panini a partir de 2007, permanecendo até hoje.

* Essa foi a última história escrita pela Rosana publicada em gibi em vida. A roteirista faleceu em 14 de janeiro de 1996, aos 32 anos de idade, vítima de afogamento em acidente trágico quando praticava esporte de rafting na sua folga. Foi uma grande perda para MSP já que naquelas alturas, ela era a que tinha mais produção, já estava escrevendo praticamente todas as histórias de abertura dos gibis e de repente a artista mais titular partiu, abrindo lacuna na MSP. Esse gibi do 'Cascão 235' saiu nas bancas na segunda semana de janeiro de 1996, na primeira semana teve 'Cebolinha Nº 109', 'Magali Nº 171' e 'Chico Bento Nº 234' também com histórias dela. Já os gibis a partir da terceira semana, Rosana já não estava mais com a gente. Quis o destino, a sua última história publicada em vida envolver fábula e plano infalível e, de quebra, piada de Magali com deslize da sua gula exagerada, temas que ela mais gostava de criar.

Mesmo após a sua morte, Rosana continuou com suas histórias publicadas nos gibis por um bom tempo, as chamadas histórias póstumas dela. Entre janeiro e abril de 1996 com os gibis prontos com antecedência e que não podiam mudar e depois seguiram colocando histórias arquivadas dela com boa frequência até em 1999 e de vez em quando podiam ser vistos roteiros inéditos até em 2006 no final da Globo. Inclusive, nos créditos finais de expediente dos gibis tinha o nome de Rosana até em 1999, sinal que ainda  tinham histórias póstumas dela com boa frequência. Em 2015, foram publicadas 2 histórias póstumas dela,  provando que ela tem muitas histórias arquivadas e poderiam publicar se quisessem e se não privilegiassem tanto o politicamente correto. 

Para compensar a ausência dela, ao longo de 1996, Paulo Back passou fazer histórias de aberturas, deram mais espaço para o Flavio Teixeira nas histórias do Parque da Mônica e contrataram o Emerson Abreu para a nova fase da MSP. A partir de agosto de 1996 já começávamos a ver algumas diferenças nos gibis, mesmo que ainda discretas, e primeiras mudanças mais nítidas a partir de 1997.

O que acho louco é que a gente lia as histórias e não sabia que Rosana havia morrido e achava que estava tudo normal. Não tinha internet, a grande mídia de televisão, jornais e rádio não tinha interesse em divulgar e a MSP só anunciou a partir dos gibis de abril de 1996, já que noticias de bastidores da MSP a gente só sabia através dos anúncios nos gibis. Então de janeiro a abril ninguém tinha conhecimento do falecimento dela. Convenhamos também que na época a gente não sabia nem nomes e detalhes dos profissionais da MSP, apesar de aparecerem às vezes em histórias de metalinguagens, mas normalmente não tinham seus nomes revelados nas histórias, afinal Mauricio nunca gostou de dar créditos aos artistas envolvidos em cada história. Ainda bem que a família da Rosana autorizou de publicarem as histórias arquivadas dela que aí a gente pôde conferir seus trabalhos por mais alguns anos, mesmo não sendo em todos os gibis. Morreu nova, mas deu pra fazer história na MSP e no mundo dos quadrinhos no tempo que passou lá.

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